Naomi Campbell ainda vê o racismo na moda, apesar dos crescentes esforços da indústria para abraçar a diversidade. Em uma entrevista exclusiva na Conferência de Luxo da Condé Nast, na Cidade do Cabo, a supermodelo diz à Vogue que apenas quando a África – seus modelos e seus estilistas – estiverem devidamente representados na passarela, a igualdade será de fato alcançada.

AÁfrica do Sul está tão próxima do coração de Naomi Campbell, nascida em Londres, que ela considera o país a sua segunda casa. “Quando você pensa na África do Sul, você lembra de Nelson Mandela, e é assim que sempre será”, diz ela sobre seu falecido amigo (a quem ela carinhosamente chama de “vovô”), e o primeiro presidente democraticamente eleito no país. Era com Mandela que ela costumava ficar quando visitava a África do Sul, e, até hoje, é para a família de Mandela que ela liga primeiro quando vai para Johanesburgo.

Durante esta entrevista, a supermodelo estava na capital do país, a Cidade do Cabo, para a Conferência de Luxo da Condé Nast, onde conversou no palco com o CEO da Gucci, Marco Bizzarri, sobre a recém-lançada iniciativa da casa de moda a favor da diversidade e inclusão, bem como a riqueza inexplorada de talentos da moda do continente. Vogueencontrou a modelo no local da conferência deste ano, no salão The Lookout, que tem um panorama de 360 graus da cidade, incluindo a Ilha Robben, onde Mandela ficou encarcerado.

A improvável amizade de Campbell com Mandela aconteceu em 1994, ano em que ele se tornou presidente e finalmente pôs fim à brutal era do Apartheid. Campbell tinha ido ao Palácio da Cidade Perdida, na província do Noroeste da África do Sul, para participar do júri da Miss Mundo, e decidiu fazer a doação de sua remuneração para o ANC, partido dele. “Quando saí do palco, recebi uma ligação com um comunicado de que eu iria conhecer o presidente Nelson Mandela”, lembra ela. “Eu dei um grito porque ele era um símbolo de esperança para mim e para tantos outros. [Ele representou] a solidariedade, a liberdade, [ele] era sem julgamentos, humilde.”

Mandela nunca demonstrou mais essas qualidades quando decidiu não concorrer a um segundo mandato. “Ele me disse que ia renunciar ao cargo de presidente e eu perguntei o porquê disso”, lembra Campbell. “Ele explicou que era muito mais fácil cuidar das crianças do futuro da África do Sul sendo não-político [porque] ele poderia obter mais ajuda de fora”.

“Vovô me disse para expressar a minha verdade, para não ter medo disso e usar minha voz para ajudar os outros”, ela continua, escolhendo suas frases com cuidado, pois tem que guardar algumas para um livro que pretende lançar. Embora sua viagem seja curta, ela reservou tempo para visitar as crianças da Amoyo Performing Arts Foundation (organização sem fins lucrativos que promove aulas de dança, atuação e canto para crianças carentes) e na Marian RC Secondary School.

No último domingo (14.04), Campbell completou o seu 33º ano na indústria da moda – ela fez seu primeiro book um mês antes do aniversário de 16 anos. Era o final dos anos 80 e naquela época Naomi era uma das únicas modelos negras das passarelas. “Eu lutava para receber o mesmo salário das minhas colegas [brancas] que faziam o mesmo trabalho”, lembra a modelo, hoje com 48 anos. E se não fosse por sua irmandade com as tops Linda Evangelista e Christy Turlington, que “comprometiam suas próprias carreiras” ao persuadir estilistas “que jamais pensavam em usar uma modelo negra naquela época”, Naomi nunca teria sido escolhida para participar dos desfiles deles.

A temporada de inverno 2019 pode ter representado o mês da moda mais racialmente diverso de todos os tempos, com 38,8% do casting sendo constituído por modelos negras pelas quatro capitais fashion, mas, como nota Campbell, ainda há muito a ser feito. “Não está completamente equilibrado. Sou o rosto de uma nova campanha e me disseram que, devido à cor da minha pele, um determinado país não usaria minha foto”, diz. “Para mim, foi um choque de realidade. Eu nunca acreditei no hype, então isso simplesmente me fez enxergar as coisas de forma mais lógica. Agora eu quero saber se as modelos [negras] obtêm as mesmas oportunidades e salários em publicidade”.

A resposta, acredita Campbell, está na África. “Há agências aqui, vi algumas modelos incríveis no último Arise Fashion Week em Lagos”, diz. “Rostos incríveis que não fazem ideia do quanto são especiais e bonitos. Trata-se de torná-las parte do cenário maior, afiliando-as a agências em Londres, Milão, Paris e Nova York.” Ela elogia o elenco do desfile de alta-costura verão 2019 de Valentino, onde mais da metade dos looks foram desfilados por mulheres negras. “Levaram quatro meses para montar o casting e dá para ver que se esforçaram nessa tarefa. Não somos uma tendência, viemos para ficar.”

Campbell quer ver mais representatividade entre os estilistas, e também ver mais estilistas que estão na África participando do cenário internacional da moda. No evento, ela usou um vestido tubinho de malha justo, preto, bordado, e enfeitado com fios coloridos – trabalho da estilista Marianne Fassler, baseada em Johanesburgo. Entre seus outros estilistas favoritos do continente estão Tiffany Amber (Nigéria), Rich Mnisi e Thebe Magugu (ambos da África do Sul), e Kenneth Ize (também da Nigéria) que, junto com Magugu, foram selecionados para o Prêmio LVMH de 2019 para jovens estilistas.

“Acredito que um estilista africano vai levar o Prêmio LVMH este ano”, diz Campbell, otimista. “Ao invés de permitir que estilistas ocidentais apropriem-se de tecidos de estilistas africanos sem saber usá-los, vamos deixar que os africanos façam isso, vamos lhe dar o crédito. Porque é isso que acontece, eles não recebem o devido crédito e isso está errado.”

Há óbvios obstáculos para os estilistas na África devido à falta de infraestrutura em termos de produção, orientação e conexões com uma comunidade de design mais ampla. Por meio da iniciativa Gucci – que fomentará parcerias com escolas nas cidades de Acra, Lagos, Nairobi e na Cidade do Cabo como parte do seu programa de bolsas de estudo de design multicultural –-, ela está determinada que isso irá mudar. Detalhes da iniciativa foram divulgados em fevereiro, em meio a acusações de que um suéter balaclava disponível nas lojas Gucci evocava o blackface. Campbell – membro do Conselho de Mudanças da Gucci – vê a resposta da grife (“ouvir antes de agir”) como positiva e espera que outras marcas sigam o exemplo. “É algo que dará retorno a eles no longo prazo. Eles agora poderão conferir, em primeira mão, os novos, jovens e promissores estilistas do continente”, diz ela.

Em termos mais amplos, grande parte da razão pela qual os estilistas africanos são sub-representados na indústria, acredita a modelo, é que, até recentemente, as pessoas tinham medo de viajar para a África, levando a equívocos generalizados e uma falta de compreensão a respeito do continente. “A África se tornou um destino de férias, aqui é um lugar para todos”, diz. “Edward [Enninful, editor-chefe da Vogue britânica] e eu fomos para Gana no Natal e agora eu mal consigo dizer a quantidade de pessoas que estão indo – estamos estimulados a ocupar os espaços. Você nunca deve confiar no que os outros dizem,” acrescenta. “Você tem que ir e experimentar por conta própria.”

Naomi Campbell participou de palestras na conferência de luxo da Condé Nast Internacional, de 2019, na Cidade do Cabo, com a editora da Vogue Internacional, Suzy Menkes, e em entrevista à Vogue.

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