Com Penélope Cruz na passarela, Chanel recriou estação de esqui

Pedro Diniz
PARIS

O desfile mais aguardado da temporada de moda parisiense aconteceu na manhã desta terça-feira (5) debaixo de uma nevasca. Artificial, claro, e feita de celulose para que ninguém escorregasse naquela enorme estação de esqui montada pela Chanel em pleno Grand Palais.

Última mega apresentação concebida pelo estilista Karl Lagerfeld, morto no mês passado, era composta por dez chalés de madeira em tamanho real, que até fumaça soltavam das chaminés, emoldurados por painéis gigantescos de montanhas nevadas.

A cidadela cenográfica representava a grandiosidade com a qual, durante mais de três décadas, o “kaiser” reverenciou o legado de Coco Chanel e, a partir dele, fez seu próprio dicionário de elegância.

Marco histórico da trajetória da grife, o desfile reuniu fashionistas, mais montados do que nunca em seus conjuntos de tweed e propostas P&B, bem ao estilo Chanel/Lagerfeld, e celebridades da moda. Silvia Fendi, parceira do estilista na grife italiana que leva seu sobrenome, era uma das convidadas especiais.

A atriz Penélope Cruz, amiga de longa data, não só veio a Paris para o adeus como pediu para desfilar. Ela encerrou a apresentação com uma flor branca na mão, trajada com o vestido “snow ball”, branco, bordado e cujo foi um dos últimos feitos por ele.

Apesar de ser considerada a última coleção criada pelo estilista, é da nova diretora criativa e antigo braço direito de Lagerfeld, Virgine Viard, boa parte das peças desfiladas. Ela terminou o trabalho que, já debilitado, ele não conseguiu concluir.

Mesmo com uma aura de transição, o inverno 2020 da Chanel é puro Lagerfeld. Os conjuntos de blazer e calça xadrez, combinados às correntes de ouro e camisa com babados são típicos do repertório do estilista.

O viés jovem, traduzido em doudounes compostas com saias midi, cores acesas e conjuntos amplos esportivos, já passeou pela passarela de Lagerfeld e, mais uma vez, elimina o aspecto mofado que as roupas poderiam passar.

A voz do estilista quebrou o minuto de silêncio pedido pela marca logo após as modelos se posicionarem em frente à casa principal do cenário. Ele explicava, em francês, que não queria o trabalho na Chanel porque achava tudo velho demais e feito para pessoas velhas.

Mas aceitou o desafio e, continua, soube que havia cumprido seu dever quando a rainha Elizabeth 2° foi a um desfile e lhe disse que suas modelos pareciam andar dispostas em uma pintura.

Nessa passarela póstuma, essa pintura mira paisagens urbanas dos anos 1990, com calças retas e xadrezes. O pied de poule característico da grife adorna looks completos, e as capas, pesadas e arrematadas por minibolsas, completavam o combo imagético pelo qual Lagerfeld foi reconhecido.

Assim como aconteceu no final do desfile da Fendi, em Milão, a Chanel tocou “Heroes”, de David Bowie, para homenagear seu super-herói, que ganhou uma caricatura distribuída como souvenir aos convidados.

Nela, ele e Coco Chanel estão juntos em uma conversa animada e, no alto da página, lê-se a frase “a batida continua”.

Fonte: Folha de S. Paulo

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